segunda-feira, maio 29, 2017

Especial: Um desenho dos 70 anos de Daniel Azulay

A origem deste especial, no momento em que o blog Peças Raras completa 11 anos, é o despertar de meu filho Lucas para as artes. Quando mostro aos amigos desenhos ou origamis feitos por ele, alguns se lembram de Daniel Azulay. Essa recordação me fez pesquisar para saber o que um dos meus ídolos da infância e adolescência está fazendo atualmente. 

Ao descobrir que o desenhista e educador está cheio de atividades, eu o entrevistei para fazer um desenho da educação, em que fala sobre a importância de se desenhar a mão livre, mesmo diante de tantos recursos tecnológicos, e o que isso pode acrescentar a formação de uma criança. Esse bate-papo está no NET Educação, do Instituto NET Claro Embratel

O áudio também pode ser baixado aqui
Foto: Paulo Jabour


DanielAzulay é uma espécie de pioneiro dos canais “Maker” que hoje estão presentes no Youtube. Nos anos 1970 e 1980 ele era referência para crianças que queriam aprender técnicas de desenho ou a fazer brinquedos com sucatas, em um programa de TV que passou pela Bandeirantes e Educativa (RTC, à época), com sua Turma do Lambe-Lambe. Mais recentemente também apresentou uma série no Canal Futura (meados dos anos 2000). Hoje mantém seu canal oficial no YouTube.

Mais de quatro décadas depois do início na TV, aos 70 anos de idade (30 de maio de 2017), o desenhista é conhecido por suas escolas no Rio de Janeiro, que oferecem cursos para crianças e jovens. Azulay também tem feito formação para professores em todo o Brasil e oferece aulas beneficentes para instituições. Nesse caso, trata-se do “Crescer com Arte”, que nasceu em 2000, a partir dos inúmeros pedidos de bolsas de estudo que ele recebia em sua escola de desenho. Ouça a entrevista completa ou acesse aqui, caso o player não esteja visível abaixo:





Cotton candy or candyfloss? Algodão doce pra você!
O pai de Daniel Azulay havia sido premiado com uma viagem aos Estados Unidos, em função de ter escrito um livro chamado “Heróis da história norte-americana”. Segundo Daniel,  isto refletiu na educação dele e dos irmãos. Todos passaram por uma escola inglesa. “Meu pai teve a preocupação que antes que a gente estudasse em uma escola brasileira, que a gente tivesse esse contato com uma escola britânica, a British School, no Rio de Janeiro”. Foi nesse período, quando tinha 4 ou 5 anos, que viu um carrinho de algodão doce pela primeira vez. Algo que o marcaria a ponto de virar uma de suas marcas registradas, como apresentador de TV e músico.

Depois da escola inglesa, passou por uma americana. Desde pequeno, lia em inglês. Até hoje lê mais em inglês do que em português, porque há uma literatura especializada que o auxilia. De 12 para 13 anos foi para a escola brasileira.

Daniel: "Eu gostava da escola inglesa e da escola americana porque os livros eram bem ilustrados. Quando eu estava com 8 para 9 anos, o meu pai começou a se preocupar com a minha leitura, porque na adolescência, meu pai lia muito. E ele queria que nós tivéssemos uma leitura escolhida. Por exemplo, a gente podia ler Monteiro Lobato, mas tinha que conhecer Machado de Assis. Eu preferia mais os livros que tinham figura, ilustrações. Monteiro Lobato tinha, mas nem todos tinham. Então, eu colocava um gibizinho dentro do livro. Ele achava que eu estava lendo (o livro), mas eu estava lendo uma revista em quadrinhos mesmo".

Dentro dos livros de ilustres autores, o menino se divertia com as ilustrações do Capitão Marvel, Mickey, Pato Donald e encantava-se com os animais que falam nas histórias. “A literatura tem essa jornada mágica no mundo da imaginação”, aponta.

Quando saiu da escola americana para a brasileira, sentiu falta das ilustrações dos livros escolares de antes. Foi quando começou a ficar em segunda época quase que todo ano e a contar com auxílio de professor particular para não repetir. Na época, com cerca de 12 anos, Daniel desenhava o tempo todo. “Dava o recreio, continuava na sala desenhando. Só parava de desenhar na hora de ir para casa”, revela. Levou muito puxão de orelha e o pai não entendia como é que o menino não ia bem na escola, já que não levava advertência. Na verdade, Daniel ficava quietinho no fundo da sala, como se estivesse escrevendo e tomando nota.

CIRCO LAMBE-LAMBE
Na conversa, o artista conta que desde os 9 anos de idade tinha o sonho de trabalhar no circo. Chegou a improvisar um trapézio na garagem de sua casa, enquanto o irmão se dedicava a mágicas. Na escola, essa aptidão para as artes foi detectada em uma espécie de teste vocacional. À época, Daniel tinha 13 anos e dizia que queria ser jornalista, enquanto a psicóloga que o avaliava dizia que tinha total inclinação para seguir na carreira artística. “Queria ser jornalista, mas aparecia que seria artista de toda forma”, afirma. 


Três momentos da infância: 1. Na cabana de índio pele-vermelha. Daniel ia à escola americana vestido assim. 2. Aos 10 Anos, no trapézio improvisado,  junto às vassouras da garagem da casa da Rua Barão da Torre em Ipanema (1957), que era decorada como "Circo". 3. Aos 13 anos com o primeiro violão (Oscar Castro Neves deu as primeiras aulas ao garoto Azulay (Fotos do acervo pessoal de Daniel)


“CRIANÇA QUE DESENHA NÃO PASSA A INFÂNCIA EM BRANCO”
No Rio de Janeiro, Daniel Azulay mantêm algumas escolas em que multiplica seu método de desenho: o alfabeto visual. Destinadas às crianças, as oficinas respeitam o desenvolvimento natural de cada um, mas, desde os primeiros traços, estimula o uso de caneta hidrocor em vez de lápis. Segundo o desenhista, isto dá mais confiança aos pequenos.

O método também é difundido em ONGs e projetos comunitários, que contam com o Crescer com Arte, projeto que leva o aprendizado gratuitamente, com base em um treinamento audiovisual, nos moldes do que Daniel fazia na TV. “O curso começou por causa da TV, porque os pais pediam curso para indicar para o filho”. Junto com a esposa Beth, veio a ideia da oficinas.

SOPRINHO E SUA TURMA
Outra atividade à qual o desenhista e educador se dedica é o desenvolvimento de cartilhas sobre temas importantes à comunidade escolar. Na entrevista, ele cita, por exemplo, a ação que desenvolveu sobre trânsito envolvendo a criação de “Soprinho e sua turma” (veja o desenho animado aqui). A ideia nesse caso é conscientizar as crianças sobre os riscos que há em se dirigir, após ingerir bebida alcóolica. 

O projeto, criado para divulgar a Lei Seca, estimulas a garotada a fiscalizar os adultos. Daniel também criou cartilhas ilustradas para ações de combate ao crack. Ele lamenta que atualmente as verbas para ações educativas nessa área estejam “congeladas”.

DESENHANDO UMA EDUCAÇÃO MAIS HUMANA
“Sem querer ensinar o padre a dizer missa”, é assim que Daniel se dirige aos colegas educadores. Ele sabe bem que dar aula no Brasil não é algo que valorizado, como deveria. No entanto, isso não deve ser obstáculo nem diminuir a sensibilidade extra que o mestre precisa ter para respeitar a individualidade do aluno. 

Na escola, crianças podem estar em um processo de percepção e descoberta, por exemplo, para a música ou algum dom artístico, como o desenho ou a dobradura. Ele cita John Lennon e Albert Einstein, que teriam sido alunos dificílimos, por não se adaptarem ao padrão que lhes era imposto. O próprio Daniel, por esse prisma, teria sido um aluno disciplinado. Não por falta de competência, mas pelo amor incondicional ao desenho. 

“Quem nasceu pra música, olha para o professor e lembra de música”, defende. Esse aluno não está ausente porque ele quer, mas porque em sua cabeça há um predomínio de outra arte. Daniel vê o adulto como um ser multi-tarefa e, por isso, mais estressado. Já o adolescente está em transformação e o professor tem de ter paciência também neste aspecto: “não é indisciplina nem falta de educação com o professor”. 
Foto: Mário Grisolli

2 comentários:

José Rodrigues Neto disse...

Que pintura, hein?!
No fastígio - e não fatídico - dos meus 28 anos, esse carinha aí foi muito importante para o ´´despertar´´ para o mundo das cores.
Desenho tão bem quanto um golfinho anda de bicicleta, mas o repertório lúdico que Azulay me trouxe é de grande valia.
Cores que embevecem - e entorpecem!- em um mundo cada vez mais cinza, mais colérico, mais petulante.
Ajudei Júlio na procura de Léo e parei no curral do Cocorícó. Comecei com Charlene sendo filmada pelo Doratiotto e parei no assobio que despertava Annenberg. Enrolei a língua para cantar Joe Cocker com Kevin Arnold e não aprendi a língua dos polos que o Pingu & cia falavam. Avisei que o Planeta Terra estava chamando e retornei em TerraDois. Filosofei no X-Tudo e provoquei com Abujamra. Fui colega de classe do Golias e pedi zero pro Nhonho. Glub-Glub, Come-Come e outros hífens da vida, independentes de quaisquer acordos ortográficos. sempre serão singulares no meu plural de vida.
Da turma de Daniel, a galera só deve só se lembra -e se mata- de uma: a Bufunfa.
É estranho, mas consigo ter saudades do meu tempo de criança e do temp ode criança dos meus pais, avós...
É como se o tempo discorresse uma crônica - a là Ivan Lins ou Nelson Gonçalves- e eu, mero ouvinte, viajasse em décadas. De cada. De escada. De alça. Descalço.
Na aba calcinada do boné do guarda, Osmar Santos trazia uma ripa engraçada, e não essa que nos lancina com os decorrer dos tempos. AzulaY. Azul vai. Azul cai.
Que o dobraLucas siga a verve do AzulPai.

Marcelo Abud disse...

E agora, José?
Não tenho palavras para comentar à altura seu comentário.
Você foi desenhado de maneira muito peculiar pela poesia e pela educação.
Viajei no seu texto, meu caro.
Agradeço a menção ao dobraLucas. Vou ler para ele. É sempre um incentivo importante.
E você continue a fazer de seu papel sempre um escrito que vale ler e viver.